terça-feira, 31 de julho de 2012

Sobre o pão das ilusões!


A mulher de fé está decidida a não ceder mais às mesmas tentações. Por muitas vezes disse para si que resguardaria sua alma e fugiria de tudo aquilo que só lhe faz mal, mas motivada, vezes pela carência, vezes pelos próprios desejos que não dão trégua, acabou entregando-se e, como sempre, terminou machucara, frustrada e arrependida. Ela sabe que o verdadeiro alento para seu interior não está ali, escondido atrás de sensações que passam rápidas demais, deixando sua alma insatisfeita e vazia, sempre levando-a às mesmas conclusões. “Eu não devia ter cedido, fui fraca e irresponsável”, diz seu interior. “É verdade”, responde o acusador com sua voz trêmula e sarcástica. “Mais uma vez acabou traindo suas próprias convicções. Você não passa de uma mulher fraca e sem valor. Não sabe valoriza-se. Como desejar ser valorizada pelos outros?”. Quando isso acontece ela não consegue se ver no espelho, perde o brilho e deixa de ouvir seu coração por um bom tempo até que resolve buscar forças para voltar à sua luz. E agora que está na luz, deseja permanecer nela. Não irá buscar em farelos o pão que necessita para realizar-se. Está cansada de alimentar-se de ilusões. Quer algo para chamar de “para sempre!”.

Thiago Mendes

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Sobre o beijo do vampiro!


O arqueiro está caminhando quando um anjo alto e vestido de branco aparece do seu lado. “Fui enviado para lhe dizer que este não será um bom dia. Volte para casa, guarde seu arco e espere segunda ordem”, diz. O arqueiro não para de caminhar. “E porque faria isso? Ontem recebi esta missão e irei cumpri-la”. O anjo se irrita. “Não está vendo? Vim dos céus, visto-me de branco para simbolizar a paz, mas parece que você prefere a guerra”. O arqueiro acelera o paço. “Prefiro manter a ordem que recebi de alguém que eu já conheço do que obedecer a um anjo desconhecido. Vestes brancas não significam nada se o coração está manchado de ódio e rancor”. Neste momento o impostor sai voando e o arqueiro vê o anjo que sempre esteve com ele amarrado à beira do caminho. Ele ora e fortalece o seu anjo que consegue se desamarrar. Fica a lição: vampiros também se vestem de branco e sempre beijam antes de morder.

Thiago Mendes 

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Sobre felicidade e sementinhas de milho!


Jávier, o aprendiz, e Álih, o guia, estão plantando uma pequena lavoura de milho a poucos metros da cabana. Por um momento o jovem para e fita os olhos de seu mestre: “Você é feliz com sua vida, estando aqui sempre sozinho, perdido no meio do nada?”. O velho lança mais algumas sementes e devolve o olhar. “Só vive só quem não sabe oferecer a si uma boa companhia e está perdido apenas aqueles que ainda não se encontraram nesta vida. Sim, eu sou feliz, porque sei que estou fazendo exatamente aquilo que fui criado para fazer”. O velho lança mais algumas sementes de milho. “Se eu não fosse feliz”, continua o guia, “seria como essas sementes de milho se rebelarem contra o seu destino, mas elas irão nascer, crescerão e você verá como irão dançar com o vento quando estiverem grandes. Depois se secarão e saberão que estão prontos para o fim. Infelicidade é apenas a desgraça de se estar fora do plano de criação”. Jávier lança mais algumas sementes. “E como saberei se estou fazendo a coisa certa?”. O velho sorri. “Seu coração dirá. Está triste com o que faz por mais admirável que seja? Então está fazendo a coisa errada! Está feliz com o que faz por mais simples que seja? Então está fazendo a coisa certa!”.

Thiago Mendes

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Sobre o caminho da busca!


O Soldado da Paz está atravessando o deserto a pé com um pequeno grupo de homens. Depois de caminharem durante três dias e estarem praticamente sem água e comida, um dos jovens parece preocupado. “Senhor, já estamos caminhando há dias e nossos mantimentos praticamente acabaram; estamos realmente no caminho certo?”. O Soldado da Paz fica em silêncio por alguns minutos. Se disser que sabe onde estão estará mentindo. Por outro lado se disser que não sabe onde estão, causará um grande desconforto no grupo podendo piorar ainda mais a situação. “Estamos no caminho certo, filho”, diz em tom tranquilo. “Estamos buscando. Enquanto o ser humano estiver buscando, estará no caminho certo, mesmo que esteja sem rumo agora, prestes a entrar em desespero, quase sem comida e água e comprometendo a vida de seus companheiros. Vamos continuar olhando para frente, tentando fugir das ilusões do deserto e cuidando uns dos outros até que encontremos um lugar”. O jovem não responde nada. Confia em seu líder. Fica a lição: Enquanto estivermos buscando, estaremos no caminho certo.

Thiago Mendes

Sobre um momento simples e inesquecível!


Resolvi compartilhar com vocês um trechinho do meu livro As coisas que a vida esqueceu de me ensinar. Espero que gostem. Segue: A chuva leve dava um ar europeu em meu mundo brasileiro. A garoa, a cidade mais triste, o menor movimento, algumas pessoas com guarda-chuva, outras com jornais sobre a cabeça e eu seguia acompanhada do meu amor e confesso que naquele momento me sentia a maior aventureira do mundo. A menina que de boazinha passa a irresponsável, que foge do trabalho para fugir com o príncipe encantado.Para onde vai me levar?, pergunto olhando dentro de seus olhos.Engraçado, diz ele com o sorriso distraído que tem,eu ia te fazer a mesma pergunta. Caminhamos sem direção e que era dia de fazer tudo ao contrário podíamos tomar sorvete na chuva, caminhar descalços na calçada fria, correr no meio de todo mundo e assustá-los como se fossemos loucose éramoscumprimentar desconhecidos como se fossem íntimos e deixá-los sem entender absolutamente nada. Fizemos de tudo. Tomamos refrigerante no canudo, dançamos na calçada uma música que ambos gostávamos e uma verdadeira multidão parou para olhar, e nós não nos importamos nenhum pouco, porque a vida é daqueles que resolvem vivê-la e não dos que param na calçada para observar os que resolvem fazê-la acontecer.

Do livro As coisas que a vida esqueceu de me ensinar

Thiago Mendes

terça-feira, 24 de julho de 2012

Sobre as maneiras de ser feliz!


O Soldado da Paz sabe que cada pessoa tem a sua maneira de ser feliz. Não é fácil, às vezes, compreender a forma que o outro decidiu construir seu destino, mas se a vida deu a liberdade para que cada um escolha um caminho, nós não temos o direito de interferir nesta lei do Universo. O que podemos fazer é, no máximo, deixar bem claro quem nós somos e o quanto o que somos nos faz bem. E isto, sem gritos, sem ladainhas longas ou sermões cansativos. O Soldado da Paz não é conhecido pelo que diz ser ou pelo que ensina aos outros. Ele sabe que a melhor escola é o exemplo e que as aulas que mais funcionam são as práticas. Claro, já ensinou o que não vivia e mostrou caminhos pelos quais jamais havia passado, mas descobriu que uma pessoa não pode ensinar outra a escalar uma montanha sem que nunca tenha enfrentado cada passo desta jornada. Aqui a regra é simples e o Soldado da Paz sabe disso: Se alguém está sorrindo, deixe-o em paz. Se alguém está chorando, sofrendo as consequências de um grande erro, certamente aprenderá com ele. O mais importante é manter a nossa posição com clareza e convicção, afinal, as pessoas precisam saber de que fonte nós bebemos. Nunca se esqueça: dar um bom exemplo sempre valerá mais que dar uma boa lição de moral.

Thiago Mendes

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Sobre o homem que não teve tempo!


Estou partindo. Ouvi o médico dizendo hoje pela manhã que meu tempo acabou aqui neste mundo. Sinto muitas dores e sei que a minha hora está chegando. Ouço, de longe, os passos do anjo que se aproxima. Como legado deixo filhos que nunca tive tempo de abraçar, que herdam bens que nunca tive tempo de usufruir, deixo para trás uma mulher que não tive tempo de amar e netos com quem não tive tempo de brincar. Deixo também momentos importantes que não vivi, deixo uma mãe idosa que não tive tempo de visitar e conhecimento que não tive tempo de ensinar; deixo amigos que não vi, livros que não li, viagens que não fiz e alegrias que não produzi. Gostaria de ter sido mais simpático, mas minha posição não permitia; gostaria de ter sido mais amigo, mas sei que não teria tempo para alimentar relacionamentos. Deixo para trás palavras que não disse, sentimentos que não me permiti e sorrisos que guardei. Há ainda muitas coisas que eu gostaria de dizer-lhes aqui, mas repito o que passei a vida toda dizendo: não tenho tempo. Meu anjo chegou. Adeus.

Thiago Mendes 

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Sobre a mulher e o guarda-chuva!


O céu está nublado e anuncia um grande temporal. Enquanto isso, a mulher de fé desfila com seu guarda-chuva sem se preocupar com o que os outros irão dizer. “Vá pra dentro menina, a chuva está vindo, será forte e seu guarda-chuva não é suficiente”, grita uma senhora que abana os braços do outro lado da rua. Mas a mulher de fé sabe que o nosso maior desafio é não permitir que as opiniões dos que estão do outro lado da rua interfiram em nossa caminhada. Ela já deixou de tomar chuva muitas vezes porque estava tão preocupada com a opinião de outros que acabou esquecendo-se da sua própria. E foi aí que fechou os olhos e esperou que a chuva viesse. Não se importava com quantos pingos seu guarda-chuva seria capaz de impedir, ficaria feliz se ele fizesse apenas a sua parte. A chuva veio e a deixou completamente molhada, mas ela não julgaria seu guarda-chuva, ele peno menos estava ali e fez tudo que podia para protegê-la. A senhora do outro lado da rua faz gesto de reprovação e fecha a porta. Não está preparada para compreender que cada um tem, por mais incompreensível que pareça, a sua maneira de ser feliz.

Thiago Mendes

Sobre a oração, a fé e o perdão!


Senhor, que eu seja capaz de repousar-me sem que sinta-me culpado e imerecedor de tal descanso. Que em Teus braços de amor onde existe perdão e paz seja o abrigo seguro que a minha alma tanto procura e tanto precisa. Sim, Senhor, sei que devo perdoar-me pelas tantas e tantas vezes em que já trai meu destino e segui as trevas, mas mergulhado em meio a culpas e, ouvindo sem parar as vozes do meu próprio julgamento, não consigo nem mesmo saber por onde começar. Senhor, ajuda-me a ensurdecer meus julgamentos para que assim, encontre o caminho do perdão. Fortaleça-me Deus para que eu dê o mais difícil e importante de todos os paços: o primeiro. Sei que nunca me desamparastes, mas neste momento, sinto-me desamparado. Sei que nunca estive só, mas neste momento sinto-me só. Sei que nunca me destes nenhum motivo para deixar de crer, mas confesso a Ti, meu Senhor, que neste momento minha fé é tão pequena quanto um grãozinho de mostarda. Tudo o que posso Lhe dizer é: ajuda-me em minha falta de fé.

Thiago Mendes

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Sobre a infância perdida!


Estes dias resolvi ir à procura de uma parte minha que ficou perdida no passado. Percorri os quintais abandonados e tentei escalar as mesmas árvores da minha infância - agora já velhas e desgalhadas - mas não encontrei nada a não ser algumas peças enferrujadas de brinquedos que não se lembram mais de mim. Levantei as saias dos mesmos cafezais que um dia serviram de esconderijo, fiz as mesmas trilhas da minha imaginação, mergulhei nos mesmos córregos – em vão! O pior aconteceu: o tempo passou rápido demais, voou desajeitado como um filhote de pássaro que ganha os céus pela primeira vez e se foi para nunca mais voltar. O menino morreu. Nem mesmo ajuntando todas as peças do quebra-cabeças e tentando reconstruir a paisagem colorida, seria possível trazer aquele mundo de volta. Tornei-me escravo da realidade e, portanto, incapaz de encontrar a infância que deixei passar. Será que rabisquei todas as folhas que poderia? Subi em todas as árvores que suportariam meu peso? Dei todas as cambalhotas e fiz todos os gracejos que conseguiria? Talvez sim! Mas isto não impede que, de vez em quando, a saudade venha pra tentar levar-me de volta a este mundo que simplesmente não existe mais.

Thiago Mendes

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Sobre alimentar o espírito todos os dias!

Álih, o guia, está de malas prontas. Irá passar um mês na cidade e durante todo este tempo Jávier, seu aprendiz, terá que cuidar de tudo sozinho.Preste atenção nos detalhes, recomenda o velho quando está saindo.Antes de se lembrar que é preciso alimentar os animais, disse ainda,não se esqueça que é preciso alimentar o seu espírito todos os dias. Se o seu espírito estiver alimentado, todas as demais tarefas se tornarão mais fáceis. O velho foi caminhando com a sacola na mão até sumir entre as montanhas. No primeiro dia Jávier ficou eufórico. Cuidaria de tudo perfeitamente: deixaria a cabana sempre bem arrumada, alimentaria os bichos, cortaria lenha, molharia a orta duas vezes ao dia e, claro, no final das tardes pescaria alguns peixes para o jantar. Com os dias, Jávier vai percebendo que o que está fazendo é apenas ocupar o lugar de um velho solitário que, apesar de sábio resolveu covardemente esconder-se atrás das montanhas.E se ele nunca mais voltar?” “E se estiver usando-me apenas para fugir das responsabilidades que são dele?O trabalho que era feito com alegria se transforma em uma rotina torturante: alimentar animais sempre famintos, varrer um quintal que não se cansa de se encher de folhas, molhar uma orta sempre seca e no final do dia ter que pescar peixes que nunca aprendem a velha lição que diz:se é fácil demais, desconfie. Jávier pensa várias coisas: em fechar a cabana e partir, soltar os animais, esperar o velho chegar - se é que ele chegará algum diae abrir o jogo sobre sua desilusão com aquela vida. Faltam apenas dois dias para a chegada do guia e o aprendiz percebe que fracassou. Está tudo desordenado. Ele se lembra do que Álih disse antes de partir:Se o seu espírito estiver alimentado, todas as demais tarefas se tornarão mais fáceis. Ele parece ouvir a voz doce do velho repetindo as mesmas palavras. Esqueceu-se do principal. Ele se ajoelha, medita em tudo que aprendeu até aqui, os textos sagrados, e descobre que do lado de fora continua do mesmo jeito, o problema é que não alimentou o seu espírito e acabou por perder-se. Ele volta ao trabalho e enquanto molha a orta no final da tarde, enxerga o guia aproximando-se ainda longe e ouve a melodia suave de seu assovio. Ele quase fracassou, mas descobriu que o segredo para realizar bem as nossas tarefas nem sempre está na habilidade, mas sim, em um espírito bem alimentado.

Thiago Mendes

Amadureci!

Hoje, já amarrotado pelo tempo, consigo perceber que, claro, o amor é essencial, mas ele sozinho - sem ideias compatíveis, jogo de cintur...