terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Sobre a fuga das galinhas!


Era finzinho de tarde, Jávier  estava tratando das galinhas quando Álih, o guiaespiritual, chegou da venda. O velho havia saído bem cedo e gastara o dia todo pra comprar alguns mantimentos e querosene para as lamparinas. “Porque demorou tanto hoje?”, pergunta Jávier. “Porque estava fugindo da panela”, responde. Álih faz um movimento com os braços e as galinhas se espalham todas de uma vez. “Essas medrosas”, recomeça o guia, “adoram o milho, mas fogem o tempo todo da panela. A maioria de nós também vive assim: queremos milho, mas abominamos a panela”. Jávier arregala os olhos. O velho continua: “Hoje eu quis fugir um pouquinho das minhas responsabilidades, dar uma escorregada e enquanto vinha sozinho caminhando pela estrada”, o velho dá uma pausa, respira e continua, “fiquei pensando que a maioria de nós somos como galinhas amedrontadas: fugimos dos outros, de nós mesmos, das consequências de atos errados que praticamos, fugimos de lembranças ruins e de refletir no mal que já causamos aos outros. Quanto mais velhos ficamos, mais medrosos nos tornamos”. Jávier põe a mão nos ombros do velho. “Isto é ruim?”, pergunta. “Depende”, responde o guia, “mas nunca devemos nos esquecer que é justamente na hora do milho que corremos mais risco de ir para a panela”. Neste momento algumas galinhas mais corajosas já haviam se aproximado novamente. O velho dá um golpe perfeito na cabeça de uma delas. “Pronto, vamos jantar esta hoje, me esqueci de fazer compras”.

 Thiago Mendes

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