quarta-feira, 16 de setembro de 2009

A QUESTÃO DO LIVRE ARBÍTRIO - Polêmica


O padre ficou calado por alguns minutos, a lua estava tímida no céu, a cidade já estava dormindo, só o garoto e o velho padre continuavam sentados ali na porta da igreja. A pergunta do menino não era fácil de ser respondida. O padre ficou pensando:
— Se Deus soubesse mesmo de tudo, o seu saber não combinaria com o amor e a misericórdia, pois sabendo de tudo, ele saberia de todas as tragédias futuras e sendo todo poderoso, ele poderia impedir as desgraças.
Inclusive, quando Deus criou o Homem, ele o criou perfeito, para ser perfeito, criou para viver em paz e bem. Deus fez também um belo jardim cheio de árvores, de animais, cercado por vários rios, inclusive o rio Tigre, e Deus estava muito animado com sua criação. No meio do jardim, Deus colocou uma árvore proibida, mas por que no meio? Deus podia ter colocado aquela árvore em qualquer outro lugar, mas fez questão de colocá-la no meio e ainda disse para o homem não comer dela.
— Talvez se Deus não tivesse falado nada, o homem nunca teria comido, mas, com a sugestão de Deus, Adão acabou por não agüentar, e depois de o homem ter comido do fruto da árvore proibida, Deus ainda veio e perguntou a ele o que tinha acontecido, sendo que, mesmo antes da criação Deus já sabia que aquela maçãzinha ia mesmo ser mordida pelo homem. E se Deus sabia, por que criar?
O velho ficou ali por muito tempo pensando em tudo aquilo. O garoto já estava dormindo em seu colo. Ele passava a mão no rosto do menino e, enquanto isso, descobriu de onde vinham aqueles pensamentos estranhos sobre Deus.
— O Criador é sempre bom, mas durante a noite os portões do inferno são abertos e muitos espíritos saem. Esses espíritos são os responsáveis por todos os nossos pensamentos impuros e mesmo aqueles que acontecem durante o dia, quando tem alguma bela mulher por perto, ou quando se vê algum comerciante contando seus montes de dinheiro e dá uma vontade de ter um pouco também, todos esses pensamentos são causados pelos espíritos e devemos vigiar nossas mentes, para que elas continuem puras e não sejam influenciadas por eles, pois dizem que Deus não sabe das coisas e, se sabe, não é bom.
Quando o padre pensava nisto veio um vento mais frio. Ele se levantou com o menino em seus braços e foi dormir.

Texto retirado do livro Soldado da Paz – Thiago Mendes, agosto de 2006
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